Sábado, dia 7, enquanto indies e emos babavam na franja, chupavam sorvetes, passeavam de montanha-russa e apanhavam dos seguranças no Planeta Terra, eu tava no Maquinária.
Sim, amiguinhos, lá fui eu bater cabeça ao som de bandas fudidasbagarai... se você estivesse em 95.
Não, nada contra esse revival, afinal realizei o antigo projeto de ver um show do Faith No More. Mas é meio triste constatar que poucas bandas atuais me empolgam do jeito que o FNM, Red Hot, Pearl Jam faziam – e ainda fazem.
Enfim, fui saltitante, feliz e pimpão, tal qual um hobbit, para a Chácara do Jockey... minha Mordor particular. O lugar é longe, gente. Muito longe. Na vez do Radiohead eu tava de carona e mesmo assim foi tenso. Agora tava só eu e eu apenas. Táxi foi a solução encontrada, mas digamos que não fiquei muito feliz de torrar os olhos da cara pra me deslocar até lá.
Chego na bagaça e o Nação Zumbi já tava lá moendo Manguetown. Gozado, nunca fui muito fã da banda, tenho o primeiro e só. Mas me diverti, as músicas funcionam, o groove é bacana e o Lúcio Maia é um puta dum guitarrista – e sabe disso, haja visto a performance guitar hero que ele tava dando no palco. Pena que ainda tava vazio o lugar, eles mereciam mais.
Meia hora de intervalo, uma cerveja pra aliviar o sol de rachar coco e eis que me entra o Sepultura. Também não sou fã dos caras, esse estilo de vocal nunca me pegou, embora o instrumental seja cabuloso. E quando o Derrick berrou “RUN FOR TERRITORY!!!”, me lembrei da Ivete Sangalo.
Explico: eu tava encostado na grade que separava a pista vip da área onde nós, pobres mortais (ênfase em
POBRES) nos encontrávamos. E o pessoal que tava ali decidiu fazer uma mega roda de pogo. Correndo e se estapeando feito malucos mesmo.
Tá, as meninas que tão lendo isso não devem tá entendendo nada. Desencanem. Só quem tem testosterona correndo nas veias e sua sangue manja do que tô falando.
Só que ali, naquele ponto, tava um chão de terra batida. Resultado?
POEEEEIRAAAA!!! POEEEEIRAAAA!!! LE-VAN-TOU POEEEEIRAAAA!!!
(O Predador falou “puta poeira do caralho” num português límpido e claro. Perde apenas pro do Mike Patton)
E no momento que descobri como um figurante do filme “A Múmia” deve ter se sentido, eis que me deparo com a pessoa mais macha daquele forfé todo:
Uma menina de uns 15 a 17 anos kicking serious ass!
Sério, a mina tava toda lanhada, com hematoma, escoriações, sangrando.... e tocando o terror pra cima daqueles marmanjos.
Bom, pra não dizer que fiquei olhando pro show do Sepultura apenas com cara de “ahn?”, esgoelei em Roots. Porque Roots, meus amigos, é Roots. Bloody Roots.
Mais meia hora, mais cerveja, e vem o Deftones. Poderia nem ter vindo, já que é tão chato quanto ficar assistindo alguém jogar Wii. Fora que eles processam tanto o som, que na hora de equalizar vira uma maçaroca horrenda e baixa. Num dá.
Show seguinte: Jane´s Addiction. E aí começaram as presepadas.
Tudo porque o Perry Farrell (vocalista da banda, inventor do Lollapallooza e cruza do Victor Fasano com o Dinho Ouro-Preto) me entra naquele puta calor que tava às 7 da noite do horário de verão com um macacão de lamê preto e púrpura com umas lantejoulas e purpurinas. O bicho tava suando mais que tampa de marmita. Fora que a porra da roupa do maluco ao final do show já tinha aberto tudo embaixo das axilas – o popular “suvacu”.
Adiciona isso à birita que ele tava entornando constantemente durante o show (o que fez ele tomar três capotes durante uma mesma música) e o fato de que ninguém da banda vai com a cara um do outro.
Eis que surgem então duas dançarinas meio geishas, meio demônios protagonizando um patético, e por isso mesmo hilariante, festival de insinuações sexuais. Ah, sim, uma das dançarinas é a SRA. FARRELL. Tipo, o cara é cafetão da própria mulher.
Bom, no meio de todo esse pandemônio, ele decide ainda tirar uma com a cara do Dave Navarro – também conhecido como “o-freak-que-come-a-Carmen-Electra-e-quase-me-fez-odiar-Red-Hot”.
Imagina um cara marrento. Agora imagina esse cara marrento com o senso de humor do Senhor Saraiva do Zorra Total. Era mais ou menos o mood do Sr. Navarro naquela noite. Lembrando, ele detesta o vocalista.
Aí surge o seguinte diálogo de Perry Farrell (alteradaço pelo vinho de quinta que tava ingerindo):
“Gente. Todo mundo sofre. Vocês acham que nós não sofremos? Pois nós sofremos. Olhe Dave. Vocês olham para ele. Esses braços perfeitos. Esse peito perfeito. Ele é lindo. Pois é, ele também sofre.”Enquanto eu me contorcia no chão empoeirado de tanto rir, imaginava o Dave no backstage, “tua arma foi o microfone, a minha vai ser a guitarra”, enquanto cabongava sem dó o lazarento.
Enfim, um som muito viajandão. Até demais pro meu gosto. Fora que Been Caught Stealing tava irreconhecível.
Enfim, Faith.
E esse foi muito bom. Mas muito bom MESMO!
A banda tocando pra cacete, inclusive o guitarrista novo que já foi da banda do Ozzy.
E a performance escalafobeticamente freak do Sr. Michael Patton, provando definitivamente que ele sim é o cara.
Cantava como se estivesse em um cabaré, total latin lover. Música seguinte se esgoelava e berrava. Depois segurava o facho. Aí tossia e simulava sua morte por engasgamento. Pulava, babava, espumava. Enlouquecia.
E brindava-nos com isso aqui:
1.Reunited (Peaches & Herb cover)
2.From Out of Nowhere
3.Be Aggressive
4.Caffeine
5.Evidence (em português e dedicada a Zé do Caixão)
6.Surprise! You're Dead!
7.Last Cup of Sorrow
8.Ricochet
9.Easy (Commodores cover)
10.Epic
11.Midlife Crisis
12.Caralho Voador
13.The Gentle Art of Making Enemies
14.King for a Day
15.Ashes to Ashes
16.Just a Man
Encore:
17.Chariots Of Fire/Stripsearch
18.We Care a Lot
Encore 2:
19.Theme from Scarface/This Guy's in Love with You (Burt Bacharach cover)
20.Digging the Grave
Só mesmo Patton para num festival (e numa banda também) marcado pelo heavy metal, cantar Commodores e Burt Bacharach e sair com vida e aplaudido por todos.
O ensandecido ainda me pula do palco, treta com os seguranças, cai de bunda no chão, levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima e leva o microfone pra todo mundo da área vip, especialmente as moçoilas, berrarem a plenos pulmões a singela expressão “Porra, Caralho!”, culminando tudo com um malho num cara que tava ali.
No bis, dedicou o show ao Palmeiras (Palmeiras? Deve ser influência do João Gordo e dos Irmãos Cavalera, só pode) e ainda me fez bater cabeça ao som de Giorgio Moroder, o rei da disco-farofa (e compositor do tema de Scarface).
Fim de show, só me restou enfrentar uma hora e meia de bumba + metrô para chegar em casa. Exausto, dolorido, empoeirado.
Mas com sentimento de dever cumprido.
Lemão, Miquê, Zé e Demônio, as cervejas que virei ali dediquei a vocês.
E que venha AC/DC!
PS: Devo admitir que o show do Iggy no PT deve ter sido foda. O problema era a fauna ali presente.