Chôse du Locke 2.0

Terça-feira, Agosto 28, 2007

Esperando Deus...

Estava na missa. Freqüentava-a pensando que dessa forma conseguiria me reconciliar com a fé que possuía quando pequeno. Não apenas a fé no sentido religioso da palavra. Mas de crença, de acreditar em algo. Também procurava ali direção, algo para equilibrar seus pensamentos e focar em algum sentido, mesmo que tênue. Funcionava.
Olhava as pessoas, distintos membros da sociedade com as folhas de cânticos nas mãos. Senhorinhas de óculos e chapéus. Tiozinhos com boinas. Adolescentes e crianças trazidos pelos pais. Tudo muito uniforme. Tudo muito… classe média.
A igreja apresentava sinais de reforma. O reboco no teto. A primeira demão de tinta. Mesmo assim, não diminuia demais o requinte do local. Não elegante, mas ainda assim ligeiramente clássico.
O padre apresenta um companheiro da paróquia que iria ficar no confessionário durante toda a missa. Se assemelhava a alguém, mas não conseguia distinguir quem.
A primeira comoção se dá durante um salmo. A senhora ao lado pula e se remexe. Encosta-se com um ar de repugnância. Quando vê que está sendo observada, esboça um sorriso amarelo e sussura algo um tanto quanto insólito: “Tinha uma taturana aqui. Eu sem querer passei a mão nela!”
“Queimou?”, perguntei. Com a negativa, entendi que o problema era o nojo em si do bicho. Tudo bem. Perfeitamente normal.
Porém a senhora não achava isso. Seu asco em relação ao bicho fez com que alardeasse às outras pessoas em volta dela o que tinha acontecido. Até pra alertar outras mulheres presentes. Normal.
O alerta surtiu o efeito desejado. Uma jovem mãe a seu lado decide achar o inseto. Encontrando, utiliza o folheto da missa para pegá-lo. Levanta e sai. Enquanto ruma para a porta, um andarilho entra na igreja. Não muito sujo, mas sua aparência não engana.
A mulher volta e senta-se no banco. “Deixei ela lá fora no jardim.” Ao escutar essa frase, um momento de reflexão. Se fosse comigo, não teria pensado duas vezes em pisotear o bicho, espalhando suas minúsculas tripas no chão da igreja. Fico mal, pois aquela mulher acaba de me lembrar que, nesses tempos de consciência ecológica, existem alternativas mais humanas, mesmo para insetos. Basta pensar um pouco. Bom, isso é uma constante em minha vida. Normal.
Olhei para a frente. Percebi o andarilho ajoelhado na primeira fila da igreja. E então veio o anormal.
O padre tinha acabado de fazer seu sermão sobre fraternidade. Ia iniciar a Oração da Comunidade. E então o andarilho se levanta, invade o púlpito, com um ímpeto selvagem, mas não agressor, querendo discursar no microfone. A senhorinha da taturana sussura um “ai, meu Deus” de reprovação.
O andarilho não consegue ser contido e explica sua situação. Vindo de viagem do interior pra se tratar. Diabetes. Internação. Câncer. Ele não estava nada bem. Queria apenas um dinheiro pra inteirar a passagem pra voltar pra casa. Iria receber ao final da missa, na porta.
E chorou. Copiosamente.
Durante tudo isso, o olhar de descaso do padre e de membros da congregação. Queriam que aquele ser, aquele alienígena, sumisse dali o quanto antes. Como ousa nos lembrar que pobres e necessitados não são lendas urbanas? Como ousa nos pedir ajuda? Nossa contribuicão é na paróquia. Não para você, pobre. Tudo isso, mais o 58o. “ai, meu Deus” da senhora dos insetos.
E veio a coleta. Todos se comportaram como se nada tivesse ocorrido. Mesmo com o andarilho ainda na primeira fila ajoelhado, chorando e rezando.
Vieram os avisos. E o padre falando da reforma da paróquia. Valores, valores, valores. E o andarilho lá. Se eu me sentia humilhado com essa situação, não saberia conceber como ele se sentia.
Acaba a missa. Trombo com o padre do confessionário. Meu Deus, ele me lembra o Michael Bay! Que raios de igreja é essa onde quem escuta seus pecados é o diretor que promoveu a total profanação de corpos em Bad Boys 2?
Saio da igreja e o andarilho está lá, com sua mão estendida. Alguns jogam umas moedas sem nem mesmo olhar pra figura cansada e triste. Mesmo assim, ele agradece. A Deus.
E aí eu soube que a única pessoa que realmente tinha o direito de ter estado dentro daquela igreja era ele. Pois era a única pessoa dali que realmente tinha fé. Que realmente acreditava que valia mais que uma taturana.
Voltei pra casa um pouco mais velho. Mais sábio. Mais triste.
E com um pouco mais de fé.

2 Comments:

  • Confesso que me assustei com o começo post... Imaginei que vc numa igreja é como eu. Buscando respostas que todo mundo parece encontrar menos eu e saindo sem ser tocada por nenhum sentimento.
    (Apesar que ir na Igreja de SAnto Expedito me toca... E ir à Aparecida tb, acho que a fé das pessoas me emociona mais do que a fé mesma).

    De qualquer modo. NO fundo, acho que vc foi o único que entendeu a fé naquela igreja.

    E a reaçao das pessoas é o que me faz nao crer na Igreja. Ou nos padres. Eles pregam algo que nao seguem.

    Anyway. Post lindo. Acabo de ficar mais velha tb.

    By Blogger Joy, at 29 Agosto, 2007 23:40  

  • Marcelao,
    otimo texto.Acho que vc deveria (mesmo!) escrever crônicas como essa. Muito sentimenal, as vezes dubio, romântico, bem redigido e - o melhor, interessante.
    Parabens!

    By Blogger chris mazzola, at 30 Agosto, 2007 10:15  

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