Chôse du Locke 2.0

Terça-feira, Agosto 14, 2007

Quem escreve a minha vida?

Já leu o conto O Processador de Textos dos Deuses? É do Stephen King e tem na coletânea Tripulação de Esqueletos. Conta a história de um cara que ganha um Processador de Textos que seu recém-falecido sobrinho montou. Só que o moleque era um gênio e tudo o que nosso herói escreve se transforma em realidade. Melhor: a tecla Delete realmente deleta da vida do cidadão tudo aquilo que o emputece. Tua mulher é uma vaca? Deletada. Teu chefe um sacana da porra? Del. Teu vizinho um mala-sem-alça? Basta clicar a famigerada tecla. Twilight Zone perde.
Vai daí que comecei a pensar sobre tudo aquilo que eu poderia deletar da minha vida e do meu passado. Como eu poderia reescrever a minha própria história de modo muito mais satisfatório (ao menos para mim).
De cara, arrancaria toda as gordurinhas extras que o regime-cão não conseguiu arrancar. A melhor lipo da história, instantânea e sem procedimentos anestésicos e invasivos. Aproveitaria também pra apagar uma minúscula, porém petulante, verruguinha que tenho na face, carinhosamente apelidada de “DeNiro”.
Feito isso, partiria pro que realmente interessa. Manés decididos a me cobrir de porrada? Não existem mais. Minha mãe? Ainda do meu lado. Meus amigos? Eu realmente poderia pagar uma de Russell Hammond em Quase Famosos e berrar de cima de um telhado que era um “golden god” (embora sem as drogas) e todos confirmariam para os céticos. Aliás, que céticos?
Minhas histórias seriam melhores. Todas as situações por que passei dariam certo. Saberia andar de bicicleta ao mesmo tempo que humilharia Tony Hawk a qualquer hora do dia. Kelly Slater e Tom Curren viriam me pedir encarecidamente que eu abandonasse o circuito para torná-lo mais competitivo. Eu, mestre de Pipeline, concordaria, magnânimo que sou.
Milhões e milhões de dólares seriam anonima e constantemente depositados em minha conta, permitindo-me realizar Sítio do Picapau Amarelo: O Filme – Reinações de Narizinho da maneira que Monteiro Lobato imaginou, isto é, contratando a Pixar ou o Weta pra fazer uma porra de sabugo de milho andar e falar (com a voz do André Valli, by the way), sem aqueles bonecos desengonçados que fatalmente vão acabar aparecendo quando um pau-mandado qualquer for contratado pela Globo pra levar a série – e não os livros – pro cinema.
Consertaria meus vacilos. Oportunidades não seriam mais desperdiçadas. Putting this way, Lemão não seria o ladies’ man da turma. Ok, pra ficar mais divertido, acho que rolaria uma saudável competição entre nós. Aproveitando, meu fígado iria tolerar muito mais álcool do que o usual.
Apagaria também minhas pequenas falhas de caráter e erros de julgamento que fizeram muito mal a mim e a outras pessoas. A vez que fui pego matando aula e acabei bombando? D-E…

Pára tudo. Esquece.

O Processador de Textos dos Deuses é bacana, é utópico. Mas também é a história de alguém que desistiu. De lutar. De pensar. De viver. Tua mulher é um saco? Show some backbone! Se nada dá certo, separa! Seu chefe? Sempre vai existir um emprego que tem um chefe legal, acredite se quiser. Aliás, porque não ser seu próprio chefe?
Você deve estar perguntando agora qual é a dessa súbita mudança de atitude. Pois é. O caso é que, após mudar todos esses fatos da minha vida, simplesmente não seria a “minha vida”! Que graça tem reescrever o passado e não ter vivido nada disso? Afinal, o que vivemos é aquilo que nos faz o que somos. Cada experiência nos transforma. Cada erro, um processo de aprendizagem. E nada, absolutamente nada, é por acaso.
Saca só: após bombar, perdi o respeito de minha família. Tive que ralar pra conquistar ele de novo. Também foi uma lição de humildade. E ao bombar, isso fez com que entrasse na PUC-Campinas em 96, ao invés de 95. Com isso, conheci Márcio e Eneida. Saindo da PUC, montamos a M3F (nunca sócio, mas sempre presente). E por causa da M3F, acabei fazendo amizades com diversas outras pessoas que ainda hoje significam muito pra mim – sim, Van e Joy, estou falando de vocês.
Aí eu vejo como sou fútil e superficial. Sabe, as coisas que mais desejamos, em geral, não são as que mais precisamos. Graças ao bom Deus que ainda consigo perceber isso. Acho que o Processador de Textos dos Deuses seria praticamente uma perda de tempo nas minhas mãos.
Praticamente.
Porque não abriria mão de ter minha mãe puxando minha orelha novamente. Nem de perder as gordurinhas extras. E muito menos de ter evitado aquele vacilo quando estava com aquela pessoa especial do meu lado.

-.-.-.-.-.-.-.

Continuando com o tema, na Academia (AIC – Academia Internacional de Cinema, e não um local qualquer que a gente vai suar sem sair do lugar) eu, Renato e Sertório temos uma “running gag”, a de que somos todos personagens de uma novelinha no estilo “Malhação”, chamada “AIC – A Série”.
Confesso que diversas vezes já me peguei pensando nisso durante minha vida acadêmica, especialmente quando entrei no Pio XII e tinha um cara na minha classe que era a fuça de um outro conhecido do Integral, porém comportamentos diferentes. Parecia que tinham contratado um mesmo ator pra fazer um novo papel.
Porém, na Academia a coisa evoluiu (ou fomos nós que involuímos, hein, hein?), assumindo proporções profissas… in our heads. Rediscussões de contratos, focus groups com o target desejado, necessidade de conflitos para a trama, essas eram as causas das mudanças que iam acontecendo, nossos destinos sendo escritos por uma equipe de roteiristas.
E o pior é que esses roteiristas não eram lá grande coisa, visto que os acontecimentos não eram críveis e as soluções às vezes exigiam um coelho saído da cartola para dar certo. Fora que esses deviam ser os roteiristas mais racistas da história, pois toda vez que rolava merda, sempre tinha um representante de uma “minoria” (ô termo pedante e escroto, viu?) protagonizando a treta. Incrível, nunca era um branquinho, loiro, de olhos azuis. Nããão, tinha que ser um gordo ou um japonês ou um gay ou um negro. ATENCÃO: NÃO ESTOU PREGANDO PRECONCEITO DE RAÇA! Aliás, acho que esses roteiristas deveriam ser demitidos pra evitar processos contra a TV que fatalmente está exibindo esse seriado. E, com certeza, esses cornos vão assar no mármore do inferno.
Anyway, a lógica do curso foi dividida em 4 temporadas, que delineamos e publico abaixo:

AIC – 1a. Temporada
Engloba o 1o. semestre de Filmworks. Numa maneira inovadora, a série é montada em dois ambientes, correndo em montagem paralela, focando a turma da manhã e a turma da noite, com abordagens diferentes para cada (aparentemente havia um racha entre produtores e roteiristas, só pode). Renato dramaticamente sai da manhã e vai pra noite, e assim se estabelecem modus operandi nas duas facções. Sertório, veterano do curso, realiza “Special Guest Appearances”.

AIC – 2a. Temporada
Uma reviravolta dá início ao 2o. semestre de Filmworks. Pesquisas realizadas comprovaram que o público ficou muito confuso com a linguagem de edição da 1a. temporada. Além disso, foi definido que com menos personagens e uma turma apenas, a série ficaria muito mais focada e econômica (metade dos roteiristas foram demitidos e alguns produtores voluntariamente abandonaram o barco). Com isso, metade dos alunos não retornam e todos passam a estudar à noite. Isso causa uma mudança brusca nas relações e no comportamento geral. Obviamente que os vagabundos roteiristas decidiram manter apenas os estereótipos, achando que poderiam lidar com essas histórias como se fosse receita de bolo. E realmente foi o que aconteceu. Destaque para o episódio final da temporada onde os alunos de um curta problemático ganham uma segunda chance devido à cessão de filmes por parte dos colegas e, no último momento, a decisão do dono da escola de custear do bolso a telecinagem. Mais deus ex-machina que isso, impossível. Também com base nas pesquisas, o personagem de Sertório (estranhamente, misticamente ou sei lá que –ente seja) passa a fazer parte da classe, e consequentemente do elenco fixo, tendo, em suas palavras, “não repetido, e sim REGREDIDO”.

AIC – 3a. Temporada
Aqui os roteiristas atingem um novo patamar de ruindade, muito pior do que a 6a. temporada de 24 Horas. Começa com alguns membros do elenco não renovando para essa temporada, o que faz com que novos personagens sejam escritos para suprirem as lacunas arquetípicas. Isto é, novos personagens, com os mesmos vícios dos antigos. E vejam vocês o grau de inventividade: eles apenas mudavam a raça ou a procedência do indivíduo, o comportamento e reações causadas eram os mesmos. Além disso, o mini-melodrama do início da temporada (o retorno de Paradella), as disfunções nos relacionamentos causados pela inserção de novos personagens e também por opções dos roteiristas preguiçosos, parecendo uma sitcom de quinta categoria.

Agora a 4a. e última temporada começou, sem Sertório e com Paradella fazendo esporádicas “Special Guest Appearances”. Stay tuned.

(Tô me sentindo o Doug Ross quando saiu do ER e voltou de surpresa em alguns episódios pra alavancar a audiência da série. George Clooney é bacana!)

3 Comments:

  • É isso aí Marcelão.
    Se voltasse e excluísse algumas coisas não seria vc.
    Acho que esse é o bacana da "história". O constante medo do erro. A margem do insucesso...
    Pelo menos temos a chance de repetir, tentar de novo. Se divertir e rir depois.
    Se vc excluir, ou vai.. ou nunca foi.
    Abração

    By Blogger chris mazzola, at 14 Agosto, 2007 17:39  

  • Bravo, my friend... Bravo!
    (só quem sabe sabe né...)

    Logo leio e "fidibéco" (hahahaha) seus roteiros! Abs, continua com o blog sempre pq. é meu passatempo semanal! Congrats

    By Blogger Guido, at 15 Agosto, 2007 16:08  

  • Eu escreveria minha vida exatamente como foi também...

    Até porque as burradas formam nosso caráter melhor do que os acertos, nao?

    E a M3F nao teria sido a mesma sem vc... talvez nao tivesse nem existido...

    Obrigada pela sua vida, Bolinha....

    By Anonymous joy, at 15 Agosto, 2007 16:10  

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